quarta-feira, 13 de maio de 2020

Ver não é coisa natural, precisa ser aprendido!

Aprender a ver sem dúvida não é algo simples de se fazer! Para tanto é preciso querer, desejar ver intrinsecamente e para além. O que torna a tarefa de ensinar a ver um grande desafio, um verdadeiro sacerdócio, uma missão de significado e importância imensurável. O que provocaria impactos profundos tanto no individuo quanto na sociedade. O que me faz crer que o grande mestre certamente não se referia apenas à religião, mas sim à espiritualidade humana quando sugeriu “Conhecei a Verdade, pois a Verdade vos libertará”! Essa verdade implica em conhecer-se intimamente e perceber-se parte de um todo constante e mutável “conhece-te a ti mesmo” disse o pensador.  Contudo e embora muito já se tenha dito e escrito sobre isso, nunca carecemos tanto de lucidez e clareza do saber ver para êxito no pensar e no agir como atualmente. Há uma verdadeira dicotomia social e uma completa ausência de referências do ser em si.
 A complicada arte de ver – Rubem Alves afirma que O ato de ver não é coisa natural. precisa ser aprendido.” – Por força do hábito acreditamos ser mais fácil perceber o outro à nossa concepção e rapidamente rotulá-lo e ou subjugá-lo em detrimento da empatia e da alteridade. Olhar e ver para dentro e se aperceber nos parece complicado. É certo que cada um vê a partir de onde seus pés pisam. Dito de outra forma é possível admitir que estamos em estágios  ou pontos diferentes na evolução do saber ver. O que implica na percepção do que vemos. William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. É preciso orientar o olhar, assim a função ímpar da educação deve ser o de ensinar a ver, e aqui necessariamente carecemos de um professor com autonomia e autoconfiança no ensinar, que nos leve a olhar para além do horizonte e a perceber o que há nas entrelinhas das falácias ideológicas e o possível na realidade posta; que aponte os assombros que crescem decorrentes da hipocrisia da banalidade cotidiana; que promova um partejar no sentir um vislumbre da beleza, da grandeza humana diante da criação. Alguém desarraigado das agruras ideológicas, desprendido de pré-conceitos e das malignidades que nos cegam e nos limita a um fazer burocrático, mecanicista e elitista. Aprender a ver para Nietzsche em “Crepúsculo dos Ídolos” é habituar os olhos à calma, à paciência, e a abarcar o caso do particular para o todo e vice versa. Aprender a ver, é, precisamente, perceber que toda a não-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de estímulo e resistência individual e social. A reação, o impulso necessário implica na prática do ter-aprendido-a-ver. Do contrário tende-se a ver desconfiadamente e a resistir o novo o esplendor. A nossa cegueira pessoal ou social, limita a nossa compreensão das coisas, não sabemos quem somos; equivocamos-nos sobre o que queremos. Sem identidade de classe, sem referências, somos facilmente manipulados e/ou andamos à deriva. O que nos dá a falsa sensação de conforto e normalidade mesmo diante do caos. Tirar a venda e ver é complicado! Pois nos retira da zona de conforto e nos impulsiona a perceber e isso exige uma reação, um sentimento um protagonismo diante da realidade.
Considerando tal compreensão cabe uma reflexão: O que nos levou à realidade presente no país onde retirada ou restrições ao acesso do direito é comemorado? Porque um número considerável de pessoas faz apologia à ditadura, ao fascismo e considera normais atos antidemocráticos, preconceituosos e excludentes? Porque uma parcela da população mesmo diante de uma pandemia não valoriza a vida, não se sensibiliza com a dor do outro? Porque parcela da classe trabalhadora mesmo no prejuízo consente a hegemonia de interesses econômicos e financeiros? É apática diante da exploração! Estamos diante de um ver sadio ou tóxico? A ignorância pode ser uma patologia com conseqüências desastrosas. Saber ver é o primeiro passo na constituição do saber ser.
João Carlos Martins.


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