A FÁBULA DOS PORCOS ASSADOS
Por Marcos Cintra (*)
Qualquer semelhança com sistemas
tributários só pode ser mera coincidência!
CERTA VEZ, ocorreu um incêndio num bosque onde havia alguns porcos, que foram
assados pelo fogo. Os homens, que até então os comiam crus, experimentaram a
carne assada e acharam-na deliciosa. A partir daí, toda vez que queriam comer
porco assado, incendiavam um bosque. O tempo passou, e o sistema de assar
porcos continuou basicamente o mesmo.
Mas as coisas nem sempre funcionavam
bem: às vezes os animais ficavam queimados demais ou parcialmente crus. As
causas do fracasso do sistema, segundo os especialistas, eram atribuídas à
indisciplina dos porcos, que não permaneciam onde deveriam, ou à inconstante
natureza do fogo, tão difícil de controlar, ou, ainda, às árvores,
excessivamente verdes, ou à umidade da terra ou ao serviço de informações
meteorológicas, que não acertava o lugar, o momento e a quantidade das chuvas.
As causas eram, como se vê, difíceis de
determinar - na verdade, o sistema para assar porcos era muito complexo. Fora
montada uma grande estrutura: havia maquinário diversificado, indivíduos
dedicados a acender o fogo e especialistas em ventos - os anemotécnicos. Havia
um diretor-geral de Assamento e Alimentação Assada, um diretor de Técnicas
Ígneas, um administrador-geral de Reflorestamento, uma Comissão de Treinamento
Profissional em Porcologia, um Instituto Superior de Cultura e Técnicas
Alimentícias e o Bureau Orientador de Reforma Igneooperativas.
Eram milhares de pessoas trabalhando na
preparação dos bosques, que logo seriam incendiados. Havia especialistas
estrangeiros estudando a importação das melhores árvores e sementes, fogo mais
potente etc. Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio,
além de mecanismos para deixá-los sair apenas no momento oportuno.
Um dia, um incendiador chamado João
Bom-Senso resolveu dizer que o problema era fácil de ser resolvido - bastava,
primeiramente, matar o porco escolhido, limpando e cortando adequadamente o
animal, colocando-o então sobre uma armação metálica sobre brasas, até que o
efeito do calor - e não as chamas - assasse a carne.
Tendo sido informado sobre as idéias do
funcionário, o diretor-geral de Assamento mandou chamá-lo ao seu gabinete e
disse-lhe: "Tudo o que o senhor propõe está correto, mas não funciona na
prática. O que o senhor faria, por exemplo, com os anemotécnicos, caso
viéssemos a aplicar a sua teoria? E com os acendedores de diversas
especialidades? E os especialistas em sementes? Em árvores importadas? E os
desenhistas de instalações para porcos, com suas máquinas purificadoras de ar?
E os conferencistas e estudiosos, que
ano após ano têm trabalhado no Programa de Reforma e Melhoramentos? Que faço
com eles, se a sua solução resolver tudo? Hein?."
"Não sei", disse João,
encabulado.
"O senhor percebe agora que a sua
idéia não vem ao encontro daquilo de que necessitamos? O senhor não vê que, se
tudo fosse tão simples, nossos especialistas já teriam encontrado a solução há
muito tempo?."
"O senhor, com certeza, compreende
que eu não posso simplesmente convocar os anemotécnicos e dizer-lhes que tudo
se resume a utilizar brasinhas, sem chamas? O que o senhor espera que eu faça
com os quilômetros de bosques já preparados, cujas árvores não dão frutos e nem
têm folhas para dar sombra? E o que fazer com nossos engenheiros em
porcopirotecnia? Vamos, diga-me!".
"Não sei, senhor."
"Bem, agora que o senhor conhece
as dimensões do problema, não saia dizendo por aí que pode resolver tudo. O
problema é bem mais sério do que o senhor imagina. Agora, entre nós, devo
recomendar-lhe que não insista nessa sua idéia - isso poderia trazer problemas
para o senhor no seu cargo."
João Bom-Senso, coitado, não falou mais
um "a". Sem despedir-se, meio atordoado, meio assustado com a sua
sensação de estar caminhando de cabeça para baixo, saiu de fininho e ninguém
nunca mais o viu. Por isso é que até hoje se diz, quando há reuniões de Reforma
e Melhoramentos, que falta o Bom-Senso.
Será que o cidadão brasileiro fará como
o João Bom-Senso, mesmo com a arrecadação federal tendo batido novo recorde em
2006 e a burocracia galopante continuar a ser estímulo para a sonegação e a
corrupção fiscais?
NOTA DO EDITOR:
"A Fábula dos porcos assados"
parece ter sido uma adaptação de texto traduzido por L. Gualazzi, de artigo
publicado em JUICIO A LA ESCUELA, Cirigliano, Forcade Tilich, Editorial
Humanista, Buenos Aires, 1976 e utilizado em encontros de capacitação dos
dirigentes de escolas publicas por ocasião da implantação dos Guias Curriculares
no Estado de São Paulo.
(*) MARCOS CINTRA, 60 ANOS, DOUTOR PELA UNIVERSIDADE DE HARVARD, VICE-PRESIDENTE E
PROFESSOR-TITULAR DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS